TEXTS


The legacy of the saviors in the languages of their places of origin:


The legacy of the saviors (Portuguese)
HERANÇA DOS SALVADORES
Translation: Lilian Lisak, daughter of Shoah survivors.

Durante a Shoá-Holocausto na Europa ocupada pelos nazistas, eu ajudei alguns judeus a salvarem suas vidas. Fiz isto correndo grande risco pessoal e contrariando as leis vigentes que culpavam os judeus por todos os males e acontecimentos e pregavam sua perseguição, hostilização, detenção e assassinato. Sabia que se me descobrissem, teria o mesmo destino que os perseguidos. Reagi quase sem pensar e como me foi possível frente ao sofrimento, a humilhação, a injustiça e o assassinato. Não eram pessoas acusadas por algo que haviam feito mas tão sómente pelo fato de terem nascido. Eram perseguidos por causas que não compreendiam, sem poder se defender e nem proteger seus filhos. Foi impossível para mim permanecer indifirente. Embora não fossem meus familiares, nem meus amigos - alguns nem mesmo os conhecia, não poderia seguir vivendo minha própria vida sem estender minhas mãos. Embora talvez pensassem de forma diferente, acreditavam de forma diferente, falavam de forma diferente, tinham aparencias físicas diferentes, estas diferenças não escondiam que se tratavam de pessoas iguais a mim. Pelo contrario, através destas diferenças reconheci a mim mesmo, porque sabia que, visto do ângulo deles, o diferente era eu. O humano é diverso e as diferenças entre os indivíduos e entre os grupos, são parte de nossa humanidade. O que fazem para outras pessoas é como se tivessem feito a mim. O que acontece ao meu redor é em parte minha própria responsabilidade. Venci a tentação de resignar-me à idéia de que nada pode ser feito. Não estive sózinho. Embora não tenham sido muitos, outros como eu provaram com suas condutas que sempre pode-se fazer algo.

É evidente que tive medo. É evidente que as coisas não foram fáceis. É evidente que em muitos momentos eu vivia o terror do que poderia me acontecer e desejava minha comodidade perdida. Mas, não era momento para lamentações, nem desejos, nem fragilidades. Tinha que responder com urgência frente ao horror que havia ao meu redor. Conseguir possíveis esconderijos, bons documentos falsos, comida suficiente, dinheiro, remédios, resolver as enfermidades e problemas que surgiam a cada momento, convencer outras pessoas a ajudarem, esconder minha conduta perante vizinhos, amigos, conhecidos e parentes que poderiam denunciar-me. Tive que mentir, subornar e manter ao mesmo tempo, a simulação de uma vida normal para não despertar suspeitas. Sabia que poderiam me descobrir. Ampliei meus cuidados e tive a sorte que outros não tiveram, de ter êxito na salvação de algumas pessoas e não ter sido descoberto.

O que fiz estava expressamente proibido. Cometi o delito de desobedecer as leis com firme e consciente convicção. Diante do que a lei me impunha, elegi o que considerei legítimo, o que acreditava que estava certo. Uma lei que alimente o mal para mim é inaceitável. Ainda que a propaganda insista que não se tratava de pessoas, que eram inimigos, que deveriam desaparecer para o bem da sociedade, eu não podia deixar de ver em cada um, que se tratava de uma pessoa igual a mim, com o memo direito de viver que eu tinha. Existem preceitos morais que são superiores a qualquer lei, são os que nos guiam e que tratarei de transmitir aos meus filhos, para que estes por sua vez transmitam aos seus. O bem é para mim uma idéia clara e sensível, que pode ser resumida em "ama a teu proximo como a ti mesmo". E vejo como próximo a todo ser humano, pense como pense, acredite no que acredite, fale como fale, tenha a aparência que tiver.

Esta é minha herança. É o que me ensinaram. É também o que aprendi. O que fiz não tem nenhum mérito, nem requer um reconhecimento especial. Era o que havia de ser feito.

Back to Legacy

Back to Texts

 Back to Openig Page

 

Tuesday 24-Oct-2006 1:41 PM
© 2004-2005-2006 Generaciones de la Shoá